Animais Fantásticos e Onde Habitam… Com Johnny Depp

O título da crítica é um pouco mais apocalíptico do que o filme ou o próprio texto. Então, se você é um dos muitos que enfrentou filas enormes para começar a ler os livros do bruxinho com os sinos da meia-noite, pode respirar aliviado: o filme é bom. Não é perfeito, mas é divertido, dinâmico e possivelmente o melhor filme do universo de Harry Potter desde Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Mas o filme não é perfeito.

Vamos começar pelo que funciona: o mundo bruxo de Rowling funciona muito bem. Segue com metáforas para os desafios da humanidade, segue nos dando momentos de espanto e deslumbre e mantém a sensação de que poderia realmente estar ali, virando a esquina. Os bruxos continuam humanos ao quadrado: todos os seus traços, bons e ruins, exagerados como um reflexo distorcido de nós, trouxas. Ou, como eles chamam os não-bruxos nos EUA, no-majs

O roteiro caminha num bom passo e não toma decisões fáceis. Um dos personagens tem uma história de abuso doméstico que é retratada com todo o horror que tais situações merecem, sem amenizar o trauma para nossos olhos delicados. Toda a história de Scamander e seus animais é, como nos livros e filmes de Harry Potter, apenas a camada superior de um enredo mais denso e elaborado. Quando Harry, Hermione e Ron(nie) investigam Snape no seu primeiro ano, eles não percebem o confronto entre o bem e o mal que ocorre em paralelo. O enredo sinistro de Quirrell e Voldemort passa despercebido pelos olhos dos três e só se revela no final, assim como o verdadeiro conflito que acontece na Nova York mágica da década de 20.

Alguns dos personagens são verdadeiramente carismáticos e marcantes. O Graves de Colin Farrell, Kowalski de Dan Fogler e Queenie de Alison Sudol estão entre os melhores personagens que Rowling já escreveu. Mesmo. Eles dominam as cenas que figuram.

Talvez a coisa mais importante é que o filme parece um filme dos bruxos de Harry Potter. A sensação é de voltar para sua cidade natal. Talvez não para sua própria casa, mas de caminhar por ruas familiares e ver um ou outro rosto que despertam um fio de lembrança. E a elegância com que isso é feito, especialmente depois do outro spinoff que a Warner produziu recentemente.

Já te convenci a ver o filme? Ótimo.

Agora, os problemas.

Newt Scamander e seus trejeitos são irritantes. Esse cacoete de caminhar torto e falar olhando para o umbigo do interlocutor é irritante de verdade. Tina e sua voz trêmula (quando ela claramente era imaginada como uma mulher mais determinada) não entrega uma performance convincente. Considerando que os dois são os protagonistas do filme, percebe-se o problema que isso gera. Algumas inconsistências no enredo do filme, algumas soluções simples que não são utilizadas e alguns desdobramentos de enredo dolorosamente óbvios incomodam momentaneamente.

Mas nada se compara ao banho de água fria que a entrada de Johnny Depp causa no expectador. Ele aparece por pouco tempo. Segundos, no máximo. Mas sua singela fala e sua aparência maquiada nos lembra dolorosamente que tudo não passa de um filme e que Jack Sparrow invadiu a tela para falar com sua voz arrastada e usar suas lentes de contato bizarras. Isso tudo, ainda mais somado às recentes controvérsias envolvendo o ator e sua ex-esposa e, pior, ao que isso representa num universo que frequentemente se coloca como um modelo de igualdade, tolerância, torna a escalação de Depp profundamente questionável. Talvez esse fosse um daqueles casos onde a refilmagem de algumas cenas (com a substiuição do ator) fosse justificável. É surpreendente ler Rowling defendendo a escolha do ator

Tudo isso não muda um fato: o filme é bom. O filme é mágico, até, e é uma adição digna ao universo ao qual pertence o bruxo Harry Potter. Basta saber se as continuações também serão.

Ficha

Título: Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them)

Nota do Sr Chato: 8/10

Potencial Comercial: 10/10

Dados Técnicos: EUA & Inglaterra / 2016 / 133 minutos / Warner

Gênero: Fantasia, aventura

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Estrelas: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Colin Farrell

Comparáveis: Série Harry Potter

Por que assistir: O mais novo filme do universo bruxo de J.K. Rowling

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