Snowden: o retorno de Stone

Quando falamos do Oliver Stone, podemos falar de duas coisas: brilhante e instável. É impressionante que o mesmo gênio de Platoon e JFK conseguiu produzir filmes medíocres como Alexandre e Savages. Isso e a participação ativa do próprio Edward Snowden na produção me deixaram com a proverbial pulga atrás da orelha: seria apenas mais um filme oportunista, um caça-níquel aproveitando as polêmicas de privacidade e segurança que estão nas notícias todos os dias?

Depois de ver o filme, a minha conclusão foi um aliviado “não”. O filme tem a força de enredo e direção de um JFK sem a violência explícita (e que seria desnecessária nessa narrativa) que muitas obras de Stone ostentam. O fator chocante de Snowden, que é um ingrediente fundamental da filmografia do diretor, chega devagar, quase sem ser percebida. Ela está na facilidade com que a CIA destrói uma família do Oriente Médio para incriminar um alvo ou na conversa casual de dois agentes da NSA olhando as fotos e vídeos privados de uma pessoa que sequer era um alvo real. Ou na cena onde Edward Snowden se dá conta que sua própria vida privada está em risco, quando percebe que o seu computador da sala pode estar captando seus momentos íntimos com sua namorada. 

Não é um filme perfeito. O enredo avança devagar e trechos longos que não ajudam o roteiro a evoluir se tornam cansativos. O ego inflado de Snowden fica evidente em diversas cenas: ele é frequentemente retratado como o melhor agente disponível em diversas agências, facilmente superando seus pares na execução de tarefas. E a participação do próprio Snowden no final do filme mostra o seu interesse em ser percebido e reconhecido. Tenho sentimentos conflitantes a respeito disso: por um lado, o sacrifício pessoal dele merece ser reconhecido. Não são muitas pessoas que abandonam sua vida para servir uma causa. Por outro, o reconhecimento poderia vir naturalmente e sem um apelo tão óbvio. 

Os atores são muito, muito bons. Joseph Gordon-Levitt faz uma das melhores performances da sua carreira e claramente tem uma opinião forte a respeito da importância da história de Snowden e de seus vazamentos sobre os abusos do governo americano. Reza a lenda que ele contrariou seu agente ao aceitar esse papel. Se isso for verdade, o ator deve ser ainda mais louvado. Shailene Woodley entregou uma performance digna de um filme desse porte, muito superior ao seu trabalho em A culpa é das estrelas e Divergente. E Zachary Quinto convenceu como um jornalista que, aos poucos, foi se tornando mais e mais engajado na narrativa de Snowden.

Apesar de tudo isso, filme peca no apelo emocional. É clínico e não consegue despertar uma simpatia real pelos personagens. Fica dúvida, claro, se isso é acidental ou se Stone considerou a mensagem do filme tão poderosa e essencial que optou por uma narrativa fria para ressaltar a veracidade e dureza da história que contou.

Ficha

Título: Snowden: Herói ou Traidor (Snowden)

Nota do Sr Chato: 9/10

Potencial Comercial: 7/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 134 minutos / Disney

Gênero: Biográfico, drama, thriller

Direção: Oliver Stone

Roteiro: Kieran Fitzgerald, Oliver Stone

Estrelas: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley

Comparáveis: A Rede Social, Citizenfour

Por que assistir: O retorno de Oliver Stone à forma.

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