A Chegada: o melhor filme do ano.

A Chegada é um daqueles filmes que sofre pela incapacidade da máquina Hollywoodiana de promover algo que não se enquadra perfeitamente em seus moldes. O pôster final se prende entre A Guerra dos Mundos de Spielberg e algum filme de guerra genérico, com helicópteros e soldados. Passa a impressão, como os estúdios gostam de fazer, que é um filme com trama e enredo simples e com uma solução direta. Que veremos tiros, explosões e o combate da humanidade contra os alienígenas. O trailer, por sua vez, coloca uma trilha sonora de suspense e as tradicionais batidas de ação que cria um clima que simplesmente não existe no filme. É um caso típico de propaganda enganosa.

Felizmente.

O filme é muito, muito mais que um thriller barato de ação.

Eu não sou uma pessoa fácil com filmes. Vocês já devem ter notado isso. Mas A Chegada é uma daquelas obras que trabalha diversos temas, propõe várias teses e dialoga com espectadores diferentes de forma desigual. O tema principal do filme depende igualmente de quem assiste já que a afinidade com trechos específicos cria uma relevância maior de uma ou outra mensagem. A habilidade com que isso foi costurado me deixou profundamente aliviado com os prospectos de Blade Runner 2049 sob a guarda do diretor Denis Villeneuve.

Em primeiro lugar, os aspectos técnicos do filme são impecáveis. A fotografia é forte, controlada e bem pensada. Os movimentos se enquadram no humor das cenas e ajudam a construir a tensão dramática de um mundo em pânico, a confusão de uma personagem sofrendo com imagens vívidas que se interpõe no seu dia-a-dia e mesmo a urgência de uma conversa que está por terminar por motivos de força maior. A paleta de cores é mais pálida em cenas presentes e mais vívida nas lembranças da protagonista, um recurso curioso que coloca em xeque o que é mais importante e o que é, de fato, a realidade dela. A trilha sonora, da mesma forma, é como aquele bom molho de macarrão que completa a refeição: está presente, é importante mas não se impõe sobre os outros elementos do prato.

A atuação de Amy Adams é um espetáculo. Sem entrar em muitos detalhes do enredo (que é surpreendente), ela consegue equilibrar a construção da sua personagem de forma ambígua e sem entregar o grande desfecho. Ela serve como fio condutor da trama: o espectador vai desvendando os acontecimento junto com ela. Até aí, nada demais. A maior parte dos filme usa esse recurso. O que torna a situação especial é que em momento algum um diálogo expositivo é apresentado para explicar os sentimentos da personagem (e da audiência). Mais que isso, Amy Adams mantém um sofrimento e força silenciosos ao longo do filme que joga uma dúvida no desdobrar dos eventos mesmo quando pistas são colocadas diantes dos nossos olhos. Os outros atores entregam trabalhos competentes, também: Jeremy Renner é competente em seu papel (mas não é surpreendente) e o sempre excelente Forest Whitaker nos dá um dos primeiros militares linha-dura que não é um vilão.

O roteiro do filme é a grande fortaleza do filme. Villeneuve aborda temas como vida e morte, livre arbítrio, comunicação, união, tensões internacionais, família e humanidade. E faz tudo com elegância, respeito e erguendo pontos válidos. O que nos torna humano? Por que percebemos o mundo como percebemos? Podemos aprender a ver o mundo de outra forma? Por que vivemos e vale a pena?

Eu fiquei comovido com o filme. Passei longos momentos olhando para a tela enquanto os créditos rolavam e tentando digerir tudo que tinha visto.

Se eu tivesse que escolher apenas um filme para ver em 2016, esse seria o filme. Mesmo num ano que com tantas outra marcas fortes na disputa.

Ficha

Título: A Chegada (Arrival)

Nota do Sr Chato: 10/10

Potencial Comercial: 4/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 116 minutos / Sony

Gênero: Drama, ficção científica

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Eric Heisserer, Ted Chiang

Estrelas: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker

Comparáveis: 2001: Uma Odisséia no Espaço

Por que assistir: Antes de ver o filme, sem motivo algum. O marketing foi horrível. Depois de assistir? O melhor filme de 2016.

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