Zootopia ou a essência Disney

Quando escrevi a crítica de Sing, frequentemente me peguei comparando o medíocre musical com Zootopia. A comparação é inevitável: ambos acontecem em mundos onde animais antropomórficos convivem em relativa harmonia num cenário urbano e moderno. Ambos focam numa visão positiva de urbanismo e retratam uma relação equilibrada entre cidades e natureza. 

E só. Depois desses paralelos superficiais, Sing despenca como um coiote enquanto Zootopia dispara como um pássaro velocista.

Já vou antecipar o veredito: achei Zootopia a melhor animação da Disney (desconsiderando as produções da Pixar) desde O Rei Leão.

Mas vamos às análises com spoilers. Vou comentar o cenário, roteiro, personagens, animação e trilha para explicar o meu fascínio por Judy e Nick.

O cenário de Zootopia parece simples mas é um dos aspectos mais impressionantes do filme. A quantidade de esforço dedicada à construção daquele mundo me parece descomunal. Um olhar rápido pinta a cidade (e o mundo do desenho) como um lugar onde animais antropomórficos convivem. Mas um mergulho mais crítico logo revela que nada é tão simples: a separação entre predadores e presas já cria uma discussão de raça, aceitação e preconceito que acompanha a narrativa toda. Claro, todo o conceito é simplificado: há de se argumentar que existem motivos reais para “presas” temerem “predadores.” Mas o debate que se levanta com uma separação tão clara pode ser transportado para o mundo real e colocar em xeque as percepções que temos de pessoas que não são exatamente idênticas a nós. Mas a construção de mundo não pára aí: percebe-se que o filme não tomou a rota simples e preguiçosa (como outros) e simplesmente largou animais falantes numa cidade desenhada para macacos sem pêlos com uma média de um metro e setenta de altura. Ao contrário: vemos que Zootopia é separada em zonas climáticas (para as diversas populações), que existem sub-cidades para as criaturas menores e adaptações inteligentes para as maiores. Portas com vários recortes para portes diferentes, lanchonetes oferecendo porções de comida para criaturas com um estômago de um, cinco ou quinhentos litros de estômago. Cada pequeno detalhe mostra o carinho e a dedicação despejados sobre o filme. É difícil não ficar boquiaberto (como Judy) ao vislumbrar a cidade de Zootopia pela primeira vez.

O roteiro de Zootopia é um espetáculo adicional. Lembra muito as estruturas mais complexas e em camadas da Pixar: a história mais rasa (de uma coelha que quer ser policial e sua amizade com uma raposa malandra para resolver um crime) a interpretações mais profundas: racismo, preconceito, o papel do Estado nesse conflito, a opressão policial e seu papel no controle de grupos oprimidos, a diferença entre lei e moralidade, a dualidade do ser entre o instinto e a racionalidade, a definição do que é um ser humano e como somos diferentes de animais desprovidos de intelecto… Isso tudo, claro, com as tradicionais mensagens da Disney de acreditar em si, seguir seu sonho e não desistir quando a situação está mais complicada. Tudo isso é ainda mais impressionante quando se leva em conta que o roteiro original do filme foi quase todo descartado e refeito para ter Judy como a protagonista e personagem de ponto de vista ao invés da raposa Nick.

Isso é muito, muito impressionante. Meses, talvez anos de trabalho foram jogados fora porque não carregavam a mensagem que os produtores queriam transmitir. Quantos filmes poderiam ter se beneficiado de decisões similares e se beneficiado disso? Da coragem de olhar friamente para seu material e recomeçar porque simplesmente não estava bom?

E isso nos leva aos personagens. Enquanto todos são carismáticos da sua forma (a vilã sendo uma metafórica loba em pele literal de cordeira, por exemplo, ou o pequeno rato mafioso que constrói uma das melhores paródias de O Poderoso Chefão já feitas), Judy e Nick roubam a cena. É raro um filme ter um par de protagonistas tão absolutamente bem construídos que realmente ocupam o papel que lhes é de direito. Judy, a jovem e positiva coelha policial, tem sua personalidade estabelecida numa exposição de seu passado e com poucas (e eficientes) cenas: ela olha fascinada para a cidade de Zootopia, mantém sua cabeça erguida mesmo morando num apartamento menos que luxuoso e cumpre suas tarefas como policial com dedicação e amor. Essas poucas informações nos tornam íntimos da protagonista sem que diálogos forçados tentem explicar suas emoções. Aceitamos como ela é. E, mais que isso, todas as ações dela são coerentes com seu personagem. O seu arco de desenvolvimento é bem estruturado e nos leva a uma conclusão satisfatória. Judy começa e termina o filme como aquela pessoa com quem adoraríamos conviver sempre. Já Nick é apresentado mais devagar: conhecemos ele pelos olhos de Judy. Ele é charmoso — o seu design lembra o de Robin Hood e isso nos cria uma empatia imediata com ele: sorriso fácil, olhos semi-fechados e uma voz envolvente. E, aos poucos, vamos superando a visão de malandro que temos do personagem e descobrimos como ele é: uma vítima de preconceito, alguém que ficou desiludido com a vida e com os outros e que, apesar de ter um bom coração, decidiu cuidar de si mesmo em primeiro lugar. E só temos certeza absoluta de que sua relação com Judy se consolidou no clímax do filme, algo que nos deixa com uma sensação positiva e otimista quando os créditos rolam. Se Judy é a amiga que todos queremos o tempo todo, Nick é aquele companheiro de bar com um bom papo e ótimas histórias.

A animação em si tem a qualidade crescente da Disney: herda algo dos tempos de 2D (o desenho de Nick, como disse antes, remete a Robin Hood) e é fantástica. Não temos distorções visíveis do cenário mas também não temos uma tentativa de se assemelhar demais à realidade. Isso seria bizarro num filme antromórfico. As coisas fazem sentido. As cores são lindas e os cenários, convidativos. Quem não gostaria de passear por Zootopia? Finalmente, a trilha sonora é fantástica. As músicas são alegres e vibrantes e o tema de encerramento equilibra um pop feliz com uma melodia típica dos desenhos da casa do Mickey. 

Zootopia é uma incrível experiência para todos. E uma animação para se revisitar, com um enredo que propõe diversão, reflexão e uma incrível sensação de positividade.

Ficha

Título: Zootopia

Nota do Sr Chato: 10/10

Potencial Comercial: 10/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 108 minutos / Disney

Gênero: Animação, infantil

Direção: Byron Howard, Rich Moore

Roteiro: Byron Howard, Rich Moore

Estrelas: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman

Comparáveis: Robin Hood, Up, Divertida Mente, O Rei Leão.

Por que assistir: A melhor animação de 2016. Possivelmente a melhor animação da Disney desde O Rei Leão.

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