Moana: um novo tipo de princesa

O lançamento atrasado de Moana no Brasil deixou-me intrigado. Achei que o filme não fosse tão bom assim e que a Disney não estivesse apostando tanto nele. Afinal, um mês de janela entre os Estados Unidos e o circuito nacional é quase inédito hoje em dia, pelo menos para grandes filmes de grandes estúdios. Foram-se os tempos em que nós, tupiniquins, só assistíamos aos últimos lançamentos com dois ou três meses de atraso. Quando sentei na poltrona do cinema para assistir, dei azar com a platéia. Peguei crianças com tênis que piscam (e que iluminavam a sala de cinema regularmente), pessoas que conversavam alto, uma menina que chutou minha cadeira pelo menos vinte vezes durante a exibição e, um som de pipoca que parecia amplificado por um microfone.

Nada disso importou. Moana é um excelente filme. Não é um dos meus favoritos: eu ainda acho Zootopia, O Rei Leão e outros muito superiores. Mas é uma adição mais que digna ao cânone Disney. 

Como sempre, farei uma análise com spoilers daqui por diante. Vou comentar as minhas impressões sobre a animação, roteiro e personagens. Vou também falar da dublagem, já que assiti o filme em português.

A animação do filme é um show. A água, a lava, a fumaça e as tempestades são animadas como nunca antes visto. São perfeitas. O oceano é um deslumbre e lembra fotos de revistas de viagens. Os cabelos dos personagens são crespos e um claro desafio para animadores. Ainda assim, são perfeitos, mudando sua textura quando secos ou molhados, como se fossem reais. Tecnicamente, o filme é irretocável. Uma obra-prima da animação. 

O roteiro do filme não é perfeito. Eu e a sra. Chata temos opiniões divergentes quanto à quantia de problemas nele mas ambos concordamos que o primeiro ato é o mais fraco. Vi um início de filme um pouco enrolado, com exposição demais e com conceitos que poderiam ter sido apresentados com cenas mais curtas. O (longo) número musical onde entendemos que Moana quer viajar e seu pai não deixa chega a ser cansativo. Quantas vezes vamos ver ela caminhar na direção do mar e ele a pegar no colo ou a arrastar para longe? Aliás, quantas vezes precisamos ver ele proibí-la de se lançar ao mar até entender que ele não queria isso? Mesmo o motivo por trás do seu racional foi superficial: mencionado uma vez e nunca mais. Eu entendi que a Disney queria experimentar dois conceitos quase inéditos: uma princesa que não é órfã e cujos pais são participativos e não intransigentes. Tudo que eles fazem de errado tem um motivo. Mas assim que o filme engrena, o roteiro fica mais interessante, animado e tem os vilões mais interessantes da Disney. Os piratas-coco são hilários, o caranguejo cantor é carismático (talvez até demais — a cena ficou com poucas sensação de risco por isso) e a criatura de lava do final tem um desfecho surpreendente. 

Além, claro, dos dois protagonistas.

Moana é um espetáculo de heroína. A ausência de um interesse romântico deixa a personagem ser livre para crescer de formas que a maioria das outras princesas da Disney não consegue. Ela tem uma missão e vai cumprí-la, custe o que custar. Moana é inteligente, hábil, esperta e carismática… E realmente utiliza todas essas características até o final, quando ela própria participa da resolução do conflito. Muitas das princesas Disney acabam montando o cenário todo e deixando suas contra-partes masculinas colherem os louros do clímas: Bela, Aurora, Branca de Neve… Moana, por sua vez, é a heroína e ponto. Está à altura da missão. O segundo personagem, Maui, rompe vários esterótipos de herói bondoso. Ele é forte, confiante… E egoísta. Seu arco de desenvolvimento é tão satisfatório quanto o de Moana, especialmente com a participação frequente de sua tatuagem animada.

Um dos grandes problemas que eu tive com a versão que vi foi a dublagem. A adaptação do texto está muito fraca, com diálogos forçados e números musicais francamente ruins. A dubladora de Moana não funcionou para mim, com um jeito de falar cheio de socos e quebras, sem a fluidez que se espera de uma fala natural. A avó de Moana também soa artificial e, de certa forma, presa. Quem ouviu as vozes originais (em trailers ou vídeos) sabe que não existe comparação na qualidade. A única dublagem que realmente se salvou foi a de Maui, que está à altura dos padrões Disney. Não entendi, honestamente, o que houve com o processo de seleção e adaptação dos outros personagens.

Isso tudo dito, o filme é excelente. Uma grande animação com um grande potencial e muito divertida. E, mais importante, que dá um ótimo exemplo de princesa para as meninas de hoje em dia: foram-se as delicadas e dependentes mocinhas de outrora e chegou Moana, um heroína forte, corajosa e independente. Como uma outra personagem principal da Disney que vimos recentemente.

Ficha

Título: Moana: Um mar de aventuras (Moana)

Nota do Sr Chato: 8/10

Potencial Comercial: 10/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 107 minutos / Disney

Gênero: Animação, infantil

Direção: Ron Clements, John Musker

Roteiro: Jared Bush, Ron Clements, John Musker

Estrelas: Auli’l Cravalho, Dwayne Johnson

Comparáveis: Mulan, Hércules.

Por que assistir: Um excelente filme da franquia de princesas da Disney.

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