La La Land: uma declaração de amor ao cinema

Há poucos dias, La La Land consagrou-se o filme com o maior número de Globos de Ouro de todos os tempo. Foram sete categorias: todas nas quais concorreu. O diretor e escritor, Damien Chazelle, com apenas 32 anos, está sendo aclamando como um jovem gênio do cinema. Todos os críticos que assistiram o filme o consideraram um dos melhores do ano, citando uma leveza e um estilo que deixou de existir em Hollywood: um musical de altíssima qualidade.

Fui ao cinema com altíssimas expectativas. Mencionei antes que amo musicais, adoro a dinâmica de Ryan Gosling e Emma Stone (Amor a Toda Prova é um filme que tem um lugar especial no meu coração) e acho que Chazelle é uma promessa para o futuro do cinema que equilibra a qualidade cinematográfica com a acessibilidade para o público. 

Minhas expectativas foram atingidas e superadas. La La Land é um fenômeno. É um filme que te leva para fora do cinema com um sorriso no rosto e uma sensação de leveza no coração.

Vou entrar em alguns detalhes do enredo aqui, ainda que o filme em si não tenha muitos desdobramentos surpreendentes: é uma experiência cinematográfica e não um mistério a ser desvendado.

O enredo do filme é tão simples que chega a ser elegante: um músico de jazz e uma aspirante a atriz quebrados e talentosos se encontram e se apaixonam. A relação dos dois os ajuda a ter forças para perseguir seus sonhos até que seu romance se torna incompatível com os caminhos que escolherem. Depois de um último momento onde eles se encontram, se ajudam e se separam.

Simples, não?

A magia de La La Land não está no enredo surpreendente ou na reflexão que gera. Mais que isso, está na sua execução e conceito: um ode tímido e acanhado aos musicais de outrora, aos romances simples e à leveza do cinema. Está nas pequenas coisas que Chazelle conduz no seu filme: nas tomadas longas que permitem uma transformação lenta e gradual das expressões dos atores: de alegria para tristeza e para fúria. De uma tomada onde vemos Emma Stone simular um monólogo inteiro e tirar um choro sincero de um ambiente estéril e de pessoas desinteressadas. De uma câmera que propositalmente é pouco desligada, acompanhando os números musicais e de dança quase sem interrupção. Dos cenários cuidadosamente construídos com contrastes de cor, luz e foco. Do uso de fumaça e recortes luminosos em momentos oportunos. Da fantasia e realidade sem linhas muito definidas, de danças em céus estrelados. Da capacidade sobrenatural do diretor de entender o espírito de cada cena e cria-la com perfeição: a briga dos dois durante um jantar surpresa que Seb (o personagem de Ryan Gosling) preparou para Mia (Emma Stone) que surge de surpresa mas com uma naturalidade incrível. Ou então a cena onde eles se encontram no cinema e suas mãos se posicionam, timidamente, para se tocar. Uma verdadeira aula de construção romântica.

La La Land é um filme saudosista sobre a efemeridade do romance, a perpetuidade do amor, a força dos sonhos, o valor do passado, o peso do presente e o potencial do futuro. Um filme sobre valores, paixões e sobre os momentos eternos que temos na nossa vida.

Além disso tudo, temos os atores. 

Ryan Gosling alterna entre um distanciamento quase frio e uma paixão avassaladora que nunca antes vi nele. O seu olhar resignado quando ele aceitou tocar numa banda cujo estilo ele não gosta para “crescer” ou o movimento sutil dos seus ombros quando ele caminha até o seu carro depois de acompanhar Mia até o dela. A expressão de decepção quando Mia não o encontra na porta do cinema seguida pelo sorriso com olhos arregalados quando a vê chegando dentro da sala de cinema. Gosling geralmente retrata personagens mais inexpressivos e, a princípio, é como achamos que interpretará Seb… Até vê-lo tocar seu jazz em um restaurante na noite de Natal e perceber toda sua postura corporal mudar, seus movimentos mais vivos e a vida o tomando. E o personagem balança nesse pêndulo pelo filme todo até o seu último sorriso resignado no seu encontro final com Mia.

E Emma Stone. O que falar dela? Provavelmente a melhor interpretação de sua vida. Sua personagem, Mia, carrega o coração a mostra, sempre transparente. Sua genuína admiração por uma atriz para a qual vende café, a interpretação de um teste de atuação, seu tédio no jantar com seu ex-namorado e seu coração genuinamente partido quando ela e Seb discutem no jantar e fora do teatro onde ela atuara. A discussão do jantar, em particular, é incrível: o olhar perdido, vago, a transição gradual de tristeza para irritação e, finalmente, decepção. Sem que Emma Stone falasse uma palavras, vemos ela debatendo consigo mesma se devia ficar ou sair e a tomada da decisão, clara como o dia. Isso tudo sem falar do teste final de atriz de Mia, quando ela canta The Fools Who Dream. Quase cinco minutos de tomada ininterrupta apenas do rosto da atriz e ela consegue vender a sua introspecção, o seu sonho e toda a paixão que ela sentia. O crescente da música, a mudança da sua postura… Tudo criando uma narrativa corporal. 

Tudo isso apoiado numa das melhores trilhas sonoras que já ouvi. As músicas equilibram o tradicionalismo que o filme admira com toques de modernidade. As performances dos atores caminham longe da perfeição do passado mas contam com uma autenticidade que compensa, e muito, a falta de técnica. Mais que isso, o filme respira e fala de música. Seb, em dado momento, explica seu amor por jazz com tamanha paixão e dedicação que eu me peguei desejando sentir aquilo por um gênero musical.

E, claro, não se pode falar de La La Land sem mencionar o final. Um toque de mestre. Um mergulho dentro das possibilidades perdidas, uma incorporação visual de arrependimento, saudosismo e idealização do passado. Tudo isso para ser amarrado com uma troca absolutamente ambígua: uma comunicação sem palavras entre Seb e Mia que pode tanto representar o arrependimento amargo de quem tomou uma decisão que não pode mudar ou a aceitação de que o tempo não pára para ninguém e que o sonho que eles viveram na terra de LA não poderia ser eterno.

Ficha

Título: La La Land

Nota do Sr Chato: 10/10

Potencial Comercial: 7/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 128 minutos / Lionsgate

Gênero: Musical, romance

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Estrelas: Ryan Gosling, Emma Stone

Comparáveis: Cantando na Chuva, 500 Dias com Ela

Por que assistir: Uma obra-prima que resgata o tempo de ouro de Hollywood.

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