Fragmentado: A reconstrução de Shyamalan

Dizer que M. Night Shyamalan passava por uma fase ruim é o mesmo que dizer que Jack Reacher 2 é um pouco decepcionante. Shyamalan só dirige filmes horríveis desde Sinais. Ou, se você for muito generoso, desde A Vila. Para ser muito franco, eu fui assistir Fragmentado sem qualquer expectativa. Esperava que seria mais um filme fraco e absurdo que tentaria me surpreender nos minutos finais.

Eu estava errado.

Fragmentado marca o retorno do mesmo Shyamalan que dirigiu Sexto Sentido e Corpo Fechado. A mão firme, roteiro bem amarrado e tensão crescente que conduziram milhões de espectadores ao desfecho surpreendente de Bruce Willis interpretando o Dr. Malcom Crowe. 

Fragmentado conta a história de três adolescentes que são sequestradas por um homem com múltiplas personalidades. Por trás desse enredo, claro, existe a sinistra narrativa da rebelião que algumas dessas facetas de Kevin, interpretado por James McAvoy, criaram para tomar o controle do corpo e alcançar um objetivo maior.

Deixando a trama de lado por um momento, gostaria de comentar no desafio monumental que James McAvoy enfrentou aqui. Ele não chega a interpretar todas as personalidades de Kevin, verdade, mas ele desenvolve os trejeitos de pelo nove e é impressionante como cada uma delas é visivelmente distinta das outras. A transformação pela qual o ator passa é marcante e impressionante. Shyamalan registra algumas transições sem desviar a câmera de McAvoy e nos mostra um verdadeiro espetáculo de atuação.

O filme ainda não estreou no Brasil, então leia a crítica por sua conta e risco. Vou entrar em detalhes da trama daqui por diante.

A trama inicial com o sequestro das três jovens rapidamente se revela como uma parte de um ritual que algumas das personalidades de Kevin vão executar para despertar uma nova personalidade. A ideia que as vinte e três personalidades de McAvoy formam uma espécie de comunidade e que algumas delas se uniram para formar um culto é fascinante. Shyamalan também explora teorias médicas recentes que teorizam a possibilidade de mudanças físicas reais acompanhar as diferentes personalidades. Por exemplo, uma das personalidades de Kevin — Jade — é diabética. O corpo dele reflete isso quando Jade está no comando. O grau de força e resistência de cada um varia de acordo com a personalidade dominante. E o culto dentro de Kevin acredita que a vigésima-quarta personalidade, a Fera, é um ser super-humano que elevaria o corpo deles além dos limites naturais. Eles também acreditam que o processo evolutivo do ser humano só é possível para pessoas “impuras” ou “quebradas.” Que o trauma avança cada pessoa além dos seus limites.
O desenvolvimento do enredo é muito bem trabalhado. Shyamalan constrói e destrói as nossas expectativas em diversos momentos: a janela de Hedwig, o pedido de socorro pelo rádio, a investigação da psicóloga. Todas soluções que nos dão esperança de uma resolução indolor e todas eventualmente derrubadas. Shyamalan leva a trama às últimas consequências, lentamente deixando para trás o gênero de suspense e caminhando para um horror sobrenatural. A migração é inesperada e estabelece um cenário de terror que raramente se encontra no cinema moderno. E a surpresa final que Shyamalan nos reserva, ligando o filme a Corpo Fechado, é espetacular: a cereja do bolo.

Como sempre, o filme não é perfeito. O conceito de “quebrado” e “impuro” é recorrente e os flashbacks da protagonista (interpretada por Anya Taylor-Joy) deixam clara a relação dela com os as ideias apresnetadas. Ainda que o cenário e as condições do desfecho sejam surpreendentes, com Fera surgindo entre as personalidades e concedendo poderes sobrenaturais ao corpo de Kevin, a resolução é óbvia. As cenas de exposição são cansativas e óbvias, quebrando o fluxo do enredo e arrancando o espectador da tensão crescente do resto do enredo. 

Mas são defeitos pequenos quando colocados no contexto do filme como uma obra completa. O filme é muito bom e uma experiência que nos devolve o M. Night Shyamalan que conquistou o mundo com a célebre frase: “eu vejo pessoas mortas.”

Ficha

Título: Fragmentado (Split)

Nota do Sr Chato: 8/10

Potencial Comercial: 7/10

Dados Técnicos: EUA / 2017 / 117 minutos / Universal

Gênero: Suspense, drama, terror

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Estrelas: James McAvoy, Anya Taylor-Joy

Comparáveis: O Silêncio dos Inocentes

Por que assistir: Enredo bem construído, atuação excepcional de McAvoy e uma tensão crescente que prende à poltrona.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s