Logan: não há mais armas no vale.

Vamos tirar do caminho: Logan é o melhor filme de herói que eu já vi. Talvez, possivelmente, O Cavaleiro das Trevas se equipare. Nenhum outro tem a combinação de enredo, atuação e execução para criar uma obra tão bem amarrada quanto esse filme. Ele vai além de ser um bom filme de gênero e chega a ser um bom filme. É um faroeste moderno. Uma ficção científica distópica sem os exageros que marcam o gênero. É um filme sobre família, esperança e o crepúsculo da vida.

É um grande filme.

Chega até a tirar o gosto amargo que outros filmes da Fox deixaram na minha boca.

Mas vou deixar as colocações polêmicas de lado e focar no filme do velho mutante icônico.

Discutirei as temáticas, atuações e minhas impressões do filme daqui para frente. Isso quer dizer que teremos detalhes da trama. Ou, no jargão coloquial, spoilers.

Começarei pela parte fácil do filme: os aspectos técnicos. Mangold não ousou… E isso é ótimo. Grandes pirotecnias teriam tirado o foco da experiência do filme. Ao invés disso, temos uma direção tradicional, com tomadas bem feitas, uma fotografia bela, cores simples e quase monótonas. Tudo construindo um estilo quase antiquado de cinematografia, que funciona bem como uma mensagem subliminar de que estamos acompanhando a saga de alguém que veio de outra era. É quase como se o estilo de um filme dos anos 70 fosse transportado para pleno 2017. Alguns pequenos erros de continuidade me incomodaram bem como três decisões do diretor que me pareceram absurdas: o vídeo com narração no celular da enfermeira (quem faz toda uma montagem e produção de narração num vídeo desses de celular?), a utilização de uma câmera digital de baixa qualidade na cena de Las Vegas e a facilidade com que as crianças foram sobrepujadas no final do filme, especialmente considerando que elas foram treinadas desde o nascimento para lutar. Mas ok. São reclamações pequenas para um filme muito bom.

A atuação é espetacular na sua simplicidade. Stewart interpretando um Xavier senil (mas ainda esperançoso), Keen como a jovem Laura (e sua capacidade de transmitir todas as emoções dela com poucas palavras) e Jackman e como o personagem titular (e colocando um peso de velhice no personagem que ele próprio não tem). Curiosamente, os personagens oferecem ótimos ganchos para discutir as temáticas que puxei do filme.

Xavier perdeu. Esse é o status inicial do filme. Ele perdeu o controle sobre seus poderes, permitiu que os mutantes fossem silenciosamente dizimados por uma humanidade que os odeia e foi responsável por um acidente tão grave que chegou a ser considerado uma arma de destruição em massa pelo governo americano. O debate que serviu como alicerce de todos os filmes (e talvez até de todos os gibis) dos X-Men se resolveu antes do primeiro quadro desse filme: Magneto estava certo e Xavier, errado. Os humanos e mutantes não poderiam conviver em paz. Os homo superior deveriam ter se unido para lutar pela sua sobrevivência e impedir o genocídio que os aguardavam. As pessoas comuns, como Magneto previu, não mudaram desde a Segunda Guerra. Eles envenenaram a todos e se certificaram que mutantes não nasceriam. Um experimento silencioso feito nas massas que ecoa as coisas horríveis que os internos dos campos de concentração viviam. Aliás, a infância dos mutantes-clones também reflete essa mesma era: pessoas presas e sendo usadas para explorar os limites da ciência, sendo marcadas e numeradas como se não passassem de objetos. Dizer que eles têm “copyright” apenas reforça mais esse tema.

Foi uma decisão corajosa de Mangold. Ele começou depois do fim. Os X-Men já não existiam. Os mutantes não existiam. A guerra tinha sido perdida. Os humanos que restaram pareciam ser o que sobraria depois toda a evolução, potencial e futuro fossem arrancados da nossa espécie. Pessoas hedonistas (que gritam “U-S-A” ao passar pelas fronteiras ou que mostram o seu corpo enquanto se anestesiam com álcool), sem empatia (como os inúmeros soldados que caçam Laura) e sem vida (como os caminhões que dirigem sem motorista e sem cuidado pelas rodovias). É um mundo distópico da forma mais terrível e silenciosa: aquela distopia que, pouco a pouco, cresce nas nossas vidas como uma doença invisível e assintomática. É o que leva à crescente intolerância ao redor do mundo, à predileção por discursos autoritários, ao medo do diferente. Os mutantes teriam menos espaço no mundo de hoje que nos anos 90, quando atingiram o auge da sua popularidade. Os vilões de Mangold são indiferentes: Pierce e seus Carrascos não odeiam os mutantes em particular. É um novo tipo de antagonista, desinteressado na conquista do universo ou algum outro enredo épico. É apenas mais um dia de trabalho para eles. A falta de paixão no mundo de Logan atinge a todos.

No meio de tudo isso, temos Xavier, o idealista. Ele segue acreditando no futuro. Na esperança. Nos mutantes. Ele também é senil. Não lembra do que fez. Não entende bem o mundo ao seu redor, não é responsável com o risco que representa para todos. Um pregador sem fiéis, gritando palavras proféticas que já não faziam mais sentido algum. Ele representa o passado de Logan e a culpa que o acompanhava por ter falhado nessa missão e, também, por ter acreditado nela. E, mais que isso, impedia que Logan avançasse. Era uma âncora (apropriadamente, já que Logan queria que levar Xavier para o mar) prendendo Wolverine a um sonho que não tinha futuro, amarrando-o a uma culpa que não iria embora. A morte de Xavier representou o fim definitivo da diplomacia entre humanos e mutantes. Marcou, também, o primeiro momento no filme onde vemos o Wolverine lutando sem limites e restrições. Ou, melhor dizendo: a primeira vez na franquia que vemos esse comportamento. Quando o sonho de Xavier morre, Logan se deixa levar pela fúria irracional daqueles que perderam. Ele passa a realmente sentir pela primeira vez no filme. O que nos leva à evolução de Logan ao longo da narrativa.

No começo, ele está preso no tempo. Vivendo seu dia da maramota pessoal. Dirige sua limosine, bebe quantias absurdas de álcool e espera a morte chegar um dia por vez… Sem sequer saber se ela está realmente chegando. Pode ser que seu morimbundo fator de cura não o conceda essa dádiva. Vemos um Logan apático e insensível. Ele só se preocupa em manter o que restou do seu passado protegido, vivo e seguro. Se possível, longe de tudo e todos. Como um animal ferido, tudo que ele queria era se recolher para o seu canto do universo e esperar a morte chegar. Seu sonho é sair pelo oceano num barco, finalmente abandonando o mundo onde ele e Xavier não se encaixam mais. Logan, diferente de Xavier, sabia que tinha sido derrotado. A chegada de Laura é a primeira onda a perturbar esse plano tão simples. Ela é o legado de Logan, de Xavier e dos mutantes. O futuro. A chance de acertar onde eles tinham antes errado. Logan, claro, resiste à ideia. E nesse momento intermediário, temos Xavier, representando o lado idealista de Logan, cultivando a nova mutante enquanto o próprio Wolverine luta para sobreviver. E para defender o seu passado e futuro, ao mesmo tempo. Só quando Xavier finalmente morre (e assassinado pelo lado selvagem de Logan: a criatura que ele seria se não tivesse encontrado os X-Men) que Logan sai do marasmo e começa a sentir as coisas. Fúria e tristeza pela morte de seu mentor, desespero pela ausência de esperança do mundo em que vive e afeto por Laura. 

E Laura, o futuro, passa a viver com a morte de Xavier. Até então, ela era o potencial desregrado. Uma criança selvagem e violenta que não se comunicava com o mundo. Ela existia como algo a ser protegido e cultivado. Não falava. Não se expressava. A morte de Xavier faz com que Laura comece a conversar ativamente com Logan, gentilmente guiando ele na direção de um novo sonho. Sem a sabedoria ou o refinamento do Professor X, sim, mas com um potencial infinito baseado na esperança de algo melhor. Ela também passa a enxergar Wolverine como o que ele é: alguém lutando desesperadamente para garantir que ela tenha um futuro. Talvez uma das melhores definições de um pai ou uma mãe que alguém pode ter. E, logo de cara, ela estabelece a nova regra diplomática com humanos: mutantes antes deles. Quando precisa de um carro para salvar a vida de Logan, ela não hesita em adquirir um. O roteiro não entra em detalhes mas é improvável que o pescador que “cedeu” o carro o tenha feito sem resistência.

Com esse novo objetivo na vida, Logan (tanto o filme quanto o protagonista) caminha para seu desfecho inevitável. Chegamos a Eden, encontramos as crianças que representam o futuro dos mutantes (e da humanidade: fica claro que elas ainda conversam, brincam e compartilham de valores que os humanos perderam). Aqui completamos o círculo. Logan finalmente faz as pazes com seu passado, aceita que seu tempo chegou ao fim e, por um breve momento, volta a ser o X-Man Wolverine para defender o futuro de sua raça. O filme é verdadeiramente glorioso nisso, especialmente quando, ao contrário do que Pierce diz, o heroísmo e vigor de Logan duram além dos efeitos do soro que lhe devolve os poderes. 

A luta final entre X-24 e Logan possui várias camadas emblemáticas. É uma luta do X-Men contra o Arma X. Uma luta da alma humana dele contra o corpo perfeito. Uma luta do passado contra o futuro. E é profundamente adequado que o embate seja resolvido pela interferência da herança que Xavier e Logan construíram juntos. Logan finalmente encontrou algo que buscou ao longo de todos os gibis e filmes onde apareceu: uma família que carregasse seu legado. Sua fala final, “é assim que se sente,” expressa o encontro com sua família, o alívio da missão cumprida, o fim de uma longuíssima vida que teve poucos pontos altos e muitos pontos baixos. Mais que isso, foi a morte de um ser humano consciente, esperançoso e completo. Um fim digno para o personagem que Jackman interpretou por tanto tempo.

Ao enterrar Logan, Laura assume o peso de seu manto e responsabilidade por seu legado. Especialmente ao marcar o túmulo de seu pai com o X dos X-Men: o sonho do Professor Xavier, que parecia impossível no início do filme, ressurge. Os jovens mutantes encontraram um lar tolerante no Canadá. O túmulo com o X também marca o local de descanso não só de Logan, mas de todos os X-Men, que finalmente teriam completado sua missão e poderiam descansar em paz.

Ficha

Título: Logan

Nota do Sr Chato: 10/10

Potencial Comercial: 10/10

Dados Técnicos: EUA / 2017 / 137 minutos / Fox

Gênero: Drama, faroeste, ficção científica

Direção: James Mangold

Roteiro: James Mangold, Scott Frank

Estrelas: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen

Comparáveis: Os Imperdoáveis, Gran Torino, O Lutador

Por que assistir: O melhor filme dos X-Men. Talvez o melhor filme de heróis de todos os tempos.

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