Moana: o reinado da empatia

Oi, prazer! Eu sou a Senhora Chata, e esta é minha primeira crítica aqui no Chatos no Sofá. Espero que você goste de lê-la e de pensar em Moana desse jeito. Como o filme já saiu de cartaz (infelizmente), o texto terá spoilers. 😉

Quando se fala sobre Moana, é muito comum que se destaque que ela é “a princesa sem príncipe”. Mas, para mim, Moana não é só sobre uma princesa. A origem nobre da protagonista é apenas uma distração. O filme também não é sobre viajar, sobre os povos da Polinésia ou sobre uma jovem que cruza o oceano para salvar seu povo. Este é um excelente filme sobre a empatia e seu poder de transformar a realidade.

Ainda criança, Moana é escolhida pelo Oceano como guardiã do coração roubado da deusa da natureza, Te Fiti, e aparentemente deverá restaurá-lo. Mas ela não é especial porque é filha do chefe ou porque tem qualidades inatas como a beleza (o que já a diferencia de dezenas de princesas Disney, que já carregaram a beleza até no nome).

Para o Oceano, Moana é especial por dois motivos: ela é altruísta e corajosa. Ela fez a escolha certa ao salvar uma tartaruguinha das aves de rapina ao invés de pegar a linda concha que o Oceano lhe ofereceu e não teve medo de seguir o caminho que ele lhe apontou mar adentro.

Mas minha paixão por Moana vai além de sua personalidade. Para entender o que me fascina na proporção entre história e fantasia que costura a trama do filme é preciso saber que a inspiração para o roteiro veio de um fato histórico verdadeiro sobre os navegadores da Polinésia: em determinado momento eles pararam de viajar e só se lançaram ao mar novamente mil anos depois.

Ninguém sabe porque pararam e nem porque retornaram ao mar. Foi nesta brecha que os diretores Ron Clements e John Musker decidiram costurar a realidade com fantasia para ajudar a escrever um futuro mais belo do que o destino de muitos povos antigos.

Podemos encontrar inúmeros motivos que explicam as viagens de tribos e povos ancestrais, e alguns deles estão explicados num livro chamado “Colapso”, de Jared Diamond, em que o autor atribui a necessidade de viajar de alguns povos antigos à escassez de recursos causada pela exploração predatória. Ou seja: é possível que os ancestrais de Moana tenham tido de viajar para encontrar ilhas maiores e com mais recursos para alimentar seus filhos, assim como tantos o fizeram ao longo da história.

E este é o primeiro dilema que os diretores nos apresentam. O chamado da corajosa Moana é a necessidade de salvar seu povo da escuridão, mas ela já ansiava por viajar antes mesmo de sentir a ameaça à ilha de Moto Nui. Desde o início esta polinésia mítica nos apresenta duas motivações possíveis para a mudança: necessidade e desejo.

Assim como Elon Musk quer colonizar Marte por conta do colapso ambiental que se concretizará nas próximas décadas, Moana precisa salvar sua ilha. Mas o mundo não seria mais lindo se Elon Musk fosse a Marte simplesmente porque pode? Porque somos curiosos e sonhamos com as estrelas desde que começamos a lhes chamar de Deus? Não seria perfeito encontrar o equilíbrio entre explorar e a descobrir a natureza para que nossa viagem ao futuro – e a Marte – seja motivada por paixão, e não por pânico?

E é para resolver este dilema que Moana vai ao encontro de Maui, o outro personagem que viaja conosco. Ao contrário da protagonista, que começa o filme mergulhada em altruísmo e sabe muito pouco sobre si, Maui transborda vaidade, egoísmo e vontade. Ele se ama muito, mas por motivos que a história irá questionar antes do fim. Rumo a Te Fiti, os dois vão equilibrar suas motivações, construir uma amizade e descobrir que nem ela é tão altruísta quanto parece e nem ele é tão egoísta que não tenha salvação.

Os dois obstáculos que eles encontram no mar poderiam ser barrigas flácidas na história, mas servem muito bem ao propósito de transformar os personagens gradativamente. Os cocos piratas até poderiam ser descartados, mas são tão deliciosamente Mad Max que merecem ficar. Sua função é dar a Moana uma chance de estabelecer, tanto diante da audiência quanto de Maui, que seu potencial é do tamanho de sua ambição.

O segundo momento é mais importante: o mergulho no mundo monstruoso da vaidade, representada pelo caranguejo Tamatoa. Numa linda rima visual, o monte que dá acesso ao mundo dos monstros é uma versão gigante da pilha de pedras que representa as lideranças do povo de Moto Nui. Pode ser interpretada como uma montanha de vaidades dos antigos líderes, e não é à toa que a porta de entrada para o mundo dos monstros é um arranha-céu no meio do mar.

Na caverna de Tamatoa, Maui aprende que a aparência de Moana esconde muito mais do que ele pressupõe. Ela é forte, inteligente, ágil e fundamental para que ele reconquiste seus poderes de semideus. Os dois passam no teste e saem da caverna cientes de que seu objetivo nada tem a ver com vaidade: ele vai ajudar o povo de Moana porque quer se conectar aos humanos e ela vai levá-lo até lá porque é seu dever.

E é quando eles chegam a Te Fiti para enfrentar o demônio de lava que a empatia da personagem principal prova que o oceano estava certo em escolhê-la. O vilão deixa de ser um obstáculo bidimensional e se transforma na metáfora que explica o filme.

Restaurado o equilíbrio entre Te Ka e Te Fiti, restaura-se também o desejo de Moana e seu povo de desbravarem o mar não por que precisam, mas porque o amam. E esta, para mim, é a beleza do filme. Esta não é a história de uma princesa sem príncipe. É a história de duas figuras femininas que representam a empatia e o equilíbrio de que tanto precisamos – mesmo que nos levem a Marte. Moana nos ensina que o importante não é onde vamos chegar – é como.

 

 

Ficha

Título: Moana

Nota da Sra Chata: 9/10

Potencial Comercial: 10/10

Dados Técnicos: EUA / 2016 / 113 minutos / Disney

Gênero: Aventura, Animação

Direção: Ron Clements e John Musker

Roteiro: Ron Clements e John Musker

Estrelas: Auli’i CravalhoDwayne JohnsonJemaine Clement

Comparáveis: Mulan

Por que assistir: Porque é uma animação Disney em ótima forma, apresenta conceitos e dilemas contemporâneos e tem uma trilha deliciosa. ❤

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